A preparação para o vestibular envolve estudos e escolhas, mas também pode trazer ansiedade, cobranças e incertezas. Afinal, quando a preocupação deixa de ser normal e começa a afetar a vida do estudante?
Para muitos estudantes, o vestibular representa mais do que uma prova: é o momento de decidir uma profissão e imaginar os próximos anos da própria vida. Com isso, a cobrança por bons resultados, o medo de decepcionar a família e a sensação de que nunca se estudou o suficiente podem transformar a preparação em uma fonte constante de pressão.
A pesquisa realizada pelo médico institucional Gustavo Silva de Souza, em 2025, em parceria com a aluna de Administração Anna Clara Cunha Marques, mostrou que 72,4% dos estudantes participantes apresentaram algum grau de ansiedade. Além disso, 51,6% apontaram provas e prazos acadêmicos como os principais fatores desencadeadores dos sintomas.
A psicóloga escolar Bruna Cardoso Silva explica que a ansiedade, em certa medida, faz parte desse processo. Momentos de decisão, como escolher uma profissão e se preparar para o vestibular, naturalmente geram preocupação e podem até ajudar o estudante a se organizar. O problema aparece quando essa ansiedade ultrapassa os limites e começa a interferir na vida cotidiana.
Insônia, alterações no apetite, coração acelerado, dor no peito, boca seca e uma mente constantemente preocupada estão entre os sinais de alerta. A pressão também pode vir acompanhada de cansaço, irritação, dificuldade de concentração, desânimo, isolamento e perda de interesse por atividades que antes faziam parte da rotina.
É nesse ponto que a ansiedade e os sintomas depressivos merecem atenção. A sensação de fracasso, a cobrança constante e o sentimento de nunca estar fazendo o suficiente podem intensificar o sofrimento emocional. Isso não significa que o vestibular, sozinho, cause depressão, mas mostra como esse período de pressão pode afetar estudantes que já estão emocionalmente sobrecarregados.
A discussão se torna ainda mais importante durante o Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre a prevenção do suicídio e de incentivo ao cuidado com a saúde mental. Falar sobre esses sinais ajuda a combater a ideia de que sofrimento emocional é apenas “frescura” ou uma parte obrigatória da vida escolar.
Para Bruna, um dos principais sinais de alerta acontece quando a ansiedade começa a impedir o estudante de viver o presente. “Quando a ansiedade te rouba dos momentos que você tem e você não consegue estar presente no momento atual, ela se torna patológica e é importante buscar apoio”.
Esse apoio pode vir de amigos, familiares, da escola e de profissionais de saúde. No IFTM, os estudantes podem procurar o NAPNE, onde há atendimento da psicóloga escolar, além de possibilidades de encaminhamento para o projeto Proteger-se e para atendimento psicológico externo, quando necessário.
A família também tem um papel importante. Segundo Bruna, mais do que escolher pelo estudante ou aumentar a cobrança, os familiares devem ouvir, acolher e validar seus sentimentos, ajudando-o a tomar uma decisão que faça sentido para sua própria vida.
A pesquisa do IFTM também chama atenção para um ponto importante: 77,3% dos estudantes que apresentaram algum grau de ansiedade não recebiam tratamento. Por isso, reconhecer os sinais e procurar ajuda antes que o sofrimento se intensifique pode fazer diferença.
O vestibular é uma etapa importante, mas não deve ser tratado como se definisse o valor ou o futuro inteiro de uma pessoa. Estudar para o futuro também precisa deixar espaço para viver o presente.