No ano de 2023, o Brasil foi confrontado com um dado alarmante divulgado pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANMT): cerca de 30% dos trabalhadores sofrem com a Síndrome de Burnout. Classificada oficialmente como um fenômeno ocupacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na CID-11 em 2022, essa síndrome coloca o nosso país em um preocupante segundo lugar no ranking mundial de casos diagnosticados. No entanto, enquanto os holofotes jurídicos e corporativos se voltam para a rotina de trabalho no sentido capitalista tradicional, uma pergunta inevitável ecoa pelos corredores das instituições de ensino: e os estudantes?
Embora os alunos não sejam empregados sob o regime trabalhista convencional, essa reflexão vai ao encontro do pensamento de Dermeval Saviani, importante educador brasileiro e criador da Pedagogia Histórico-Crítica, que formula o conceito do trabalho como princípio educativo. Saviani é autor do texto denominado: “Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos" e defende em seus trabalhos que o processo de aprendizado na escola deve ser encarado com a mesma seriedade e sistemática de um processo de trabalho, afinal, o papel da educação escolar é justamente promover a apropriação dos bens culturais e científicos produzidos historicamente pelo trabalho humano. Sob este ponto de vista, o estudo se torna um trabalho sistemático e, se ele é fundamentalmente uma forma de trabalho, surge a necessidade de reconhecer que as instituições de ensino, com suas atividades obrigatórias, responsabilidades, avaliações de desempenho e prazos estabelecidos, constituem um ambiente de trabalho real para o estudante. Essa analogia estrutural explica por que o burnout estudantil se manifesta, consolidando-se como uma resposta de estresse crônico a um contexto acadêmico exaustivo.
Esse adoecimento é um fenômeno multifatorial que ganha contornos específicos dentro da rotina de estudos. A ciência já mapeou os estressores que funcionam como os principais preditores desse esgotamento no ambiente educacional: a relação por vezes desgastante com os professores, a dificuldade constante de conciliar as obrigações com o lazer, o excesso de disciplinas para cursar, os conflitos com colegas, a sobrecarga de trabalhos extraclasse, a pressão das provas e a complexidade de dar conta de estágios e relatórios. Quando essas demandas superam os recursos de enfrentamento do estudante, o burnout se instala em três dimensões cruciais, que começam com o desgaste físico e emocional, passam pelo distanciamento ou cinismo em relação ao curso e deságuam em um profundo sentimento de ineficácia na própria formação.
Pensar nisso nos coloca diante da realidade de estarmos inseridos em uma Instituição Federal, onde a pressão por excelência e o rigor constante são partes do cotidiano. Em um cenário assim, o IFTM Campus Patrocínio se torna um ponto de partida crítico para essa reflexão. Por isso, é fundamental que a comunidade acadêmica: gestores, professores e os próprios alunos aprenda a se atentar de verdade à saúde mental dos estudantes e aos sinais de burnout dentro do ambiente estudantil. Não podemos normalizar a exaustão extrema, o isolamento ou a perda de sentido nos estudos como se fossem o preço natural a se pagar por um diploma. Identificar esses sinais logo no início e estruturar redes de apoio psicológico e pedagógico eficientes é o único caminho para garantir que a excelência acadêmica não seja conquistada às custas de problemas emocionais.